Criatividade, os seus meandros, os becos sem saída e a arte de saber quando parar e seguir em frente.

Esta semana uma amiga minha, que admiro imenso como mulher e como artista,  disse-me que se sentia intimidada pela minha criatividade. Que estar perto de mim a bloqueava porque admira muito o meu trabalho e jamais seria capaz de fazer o que faço. No entanto disse-me que depois de ter visitado a minha exposição na Biblioteca de Tábua sentiu-se impelida a escrever um conto, e que o conto está muito bonito.

E quantas vezes eu sinto o mesmo quando admiro o trabalho de outros artistas incluindo o dela?

Faz parte! É uma dor e um desconforto bom, daqueles que buscam, que não se contentam e que sabem que os universos que trazem dentro de si são demasiado grandiosos para serem expressos na forma. E é esta ambição de ir mais fundo, de materializar a verdade, que nos faz buscar inspiração, admirar o trabalho dos outros e sentir desconforto é crucial para quem quer crescer e seguir em frente.

Esta minha amiga nem sabe (ou sabe) o quanto da sua sabedoria e das suas histórias me inspiraram a criar algumas das peças que justamente, arrebataram o seu coração. Ou seja… Ela está lá, ela ajudou, fez parte, ninguém cria nada sozinho, é a vida que cria em nós.

Não é tão belo?

Agora quero partilhar com vocês o “making off” de uma peça muito especial que criei. Chama-se Deusa da Lua.

Tudo começou numa visita que fiz ao jardim da minha querida Fernanda Botelho, que muitos de vocês conhecem como uma mulher que dedica a sua vida ao estudo e à divulgação das Plantas Medicinais, e que tantos livros já publicou sobre o assunto. Ora nesse dia eu fui lá fazer uma sessão fotográfica de alguns fios que tinha fiado e o meu marido entre muitas outras, tirou uma foto (em baixo) que me tocou profundamente. Tocou tanto que guardei o fio para mim e mantive a foto sempre por perto. Queria fazer qualquer coisa com o fio e com a imagem da estátua, mas não sabia o quê, nem como. Isto há cerca de 6 anos.

O ano passado tive a ideia de transferir a foto para tecido e comecei a bordá-la, depois de muitos “devia de” e “tenho de”, fiquei reduzida à cara da estátua e fiquei sem saber o que fazer com ela. Isto foi em Junho. Em Agosto decidi aplicá-la a uma tecelagem, mas na altura apercebi-me que gostava tanto da frente do bordado quanto do avesso. Ficou à espera mais uma vez…

Foi em Janeiro deste ano que finalmente a acabei. Transformei-a numa peça reversível, para que ambas as faces do mesmo Ser possam ser apreciadas. Afinal quantas faces tem a Deusa da Lua?

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Estou 100% satisfeita? Nunca. Nunca estou, mas a arte de se ser artista é aprender  quando parar, quando já chega e é hora de seguir em frente.

E na arte da vida não é exactamente a mesma coisa?

Uma semana maravilhosa para vocês.

Ana

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As mãos e o cérebro. O trabalho manual directamente ligado à inteligência.

Há pouco tempo descobri o livro – The Hand –  do Dr.  Frank Wilson, um neurologista que foi fundo na investigação da mão e da sua ligação ao cérebro, às emoções e até mesmo à linguagem.

E fiquei a pensar nas escolas e nos currículos escolares. Há crianças de 15 anos que nunca pegaram numa agulha para dar um ponto num pedaço de tecido. Eu pessoalmente acho grave. Não se trata de no futuro saber remendar umas meias (embora isso também seja importante), trata-se de desenvolver o cérebro, de criar sinapses que são extremamente complexas e que se desenvolvem naturalmente nas actividades que exigem tanto da motricidade fina, quando da coordenação.

Fotografias do “Encontro Bordado” – dinamizado por mim na Biblioteca Municipal  de Tábua

Agora imaginem uma sociedade onde as pessoas se juntam para “fazer” soluções, seja para tricotar uma manta para alguém doente, seja para construir um abrigo para um animal, ou para bordar desejos de amor e paz!

Como esta é uma das minhas missões, levei um desafio à professora do meu filho. Construir um painel que falasse do fio que liga o nosso coração ao coração da nossa comunidade, pedi-lhe que usasse têxteis no trabalho, uma vez que o painel ia ficar exposto na minha exposição “Os fios que nos tecem – uma viagem do individual ao colectivo”.

Este foi o resultado. A manta de retalhos no painel, foi cozida por eles com pedaços de tecido com história, para alguns foi o quadrado da primeira camisa que usaram e para outros a primeira vez que cozeram com linha e agulha. Todos ficaram a ganhar, a professora trabalhou a área de Português e Expressões, os meninos têm o trabalho deles e uma parte da sua história reconhecidos numa exposição, e eu tenho a honra de partilhar o meu espaço com eles.

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Podia começar a dissertar aqui sobre as falhas do sistema de educação e os problemas da cultura actual…

Mas prefiro deixar a mensagem de que com pequenos gestos podemos iniciar grandes mudanças, por isso inspirem-se, reúnam a comunidade local e criem coisas com as mãos, ou procurem quem o faça na vossa área de residência, às vezes ficamos em casa a pensar no que está mal e nem chegamos a perceber que há tanta coisa boa a acontecer à nossa volta!

“Quando a descoberta pessoal leva alguém a aprender a fazer alguma coisa,

 com as mãos,

 unindo movimento, pensamento e sentimento

 à busca activa de objectivos a longo prazo,

 esse alguém transforma-se significativamente e irreversivelmente.”

Dr. Frank Wilson, The Hand

 

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