Proserpina em mim, Proserpina em nós. Mitos que nos tecem e se entrelaçam com a vida cíclica.

Aceitei o desafio de escrever um pequeno texto, à luz do trabalho que fui desenvolvendo (bom, em verdade, vivendo) no curso “A Arte de Tecer a Vida Tece o Verdadeiro Eu”, dou por mim, a dar voz e palavras a uma viagem alquímica… uma viagem de corpo e consciência, que hoje nasce em tom de celebração da chegada de um novo ano astrológico.

Dante Gabriel Rosseti Proserpina 1874Tecendo, ouvi o Mito de Proserpina.
Dando corpo com cada fio, à trama montada, as palavras, como que por osmose, penetraram em mim. E como não seria assim?
Tecendo a minha Taça, embrenhei-me na companhia de Proserpina e durante os últimos meses, caminhei numa viagem interna a que posso chamar simplesmente Proserpina em Mim, sempre acompanhada pelo meu Tear, meu confidente, que hoje olho, com se olhasse um espelho que mostra além do reflexo; espaço criador e criação; espaço de encontro com o mais íntimo silêncio interno.
Não me prendo na história contada no Mito, até porque sei, que para o próximo ano, a história será diferente. Porque sei, que sendo igual para todas, como é para a Mãe Terra, é única para cada uma; e mesmo que a vivenciemos mais que uma vez  (e com certeza o faremos, vezes e vezes sem conta), ela será sempre nova e o caminho será diferente…
A sincronicidade da vida, permitiu-me ir revisitando o Mito ao longo do Outono e do Inverno, dando mais força à vivência navegada entre momentos de nevoeiro, em que as coisas e os acontecimentos pareciam turvos e quase impalpáveis e fortes momentos de insigth, de uma lucidez incrível no meio do frio, da escuridão e da dureza. Fui renascer ao submundo, com a consciência de que ali, no meu submundo interno, se encontra um dos meus férteis úteros; na sombra desnudo-me e renasço.
Na verdade, nesta altura da minha vida, o escuro, o não visível, já é um espaço mais conhecido e confortável. O medo que continua presente, já adquiriu uma nova qualidade, é olhado, acolhido, já não me faz parar, porque me sei em movimento constante.
Uma vez mais Proserpina, mas desta vez, Proserpina tecendo-se.
Proserpina reconhecendo toda uma carga que as expectativas luminosas de Demeter, de todas as que me esperam somente pura,virgem e “bela” colocam-me olhos nos olhos da adolescente que fui.
E dali, como não olhar o narciso? E como não dar-lhe um sorriso? Até mesmo um piscar de olhos? (sorrio pensando se não semeei eu narcisos até…)
E nos fios que passaram a tramas, foi ficando clara que a iniciação não se dá porque o Carlo Francesco Nuvolone O Rapto de Proserpina 1630-1640Deus Plutão me levou, ou levará vezes sem conta no tempo, ainda para mais tendo em conta que por vezes é ele que comigo vem… mas quando, numa adolescência sem idade, parto ao encontro das trevas; num retornado movimento de renovar… de me despir de expectativas que já pesam… porque em nada são meus desejos ou anseios.
Quando olho a Demeter interna e lhe digo… agora, agora vou partir sem ti. Sem medo, e até na sabedoria que a sua viagem será para ela também um renascimento, ou não. Mas é a sua!
Aqui, esvaziei a taça que sou, porque só vazia a posso encher do que me serve.
Montada novamente a trama, ainda o Inverno se fazia, tecendo-se na minha cabeça novos fios brancos. É engraçado como ciclicamente no escuro, venho reconhecer e encontrar luz. Luz luminosa, Luz calor… Luz sabedoria.
Nas alturas de escassez, o espaço criado por um vazio expansor, mostra-me bem as minhas raízes… o meu coração. Aquele espaço onde, quando faz frio, a vida encontra ninho para se recolher e se preservar. O subsolo. A terra.
E eu confio. Confio no carinho e na empatia. Na honestidade. Na verdade. No amor. Na responsabilidade. Na criatividade. Na beleza.
E sei-me acompanhada. Sozinha, não estou só.
As minhas irmãs tecem nos seus teares. Canto com elas. Damos espaço às fibras dos seus nobres fios com água dos nossos olhos, como suor do esforço que às vezes a vida exige e com o calor da irmandade que se constrói tecendo.
E com elas canto o meu nome e o nome de cada uma. Connosco cantam as da nossa linhagem. As nossas ancestrais.
Desta vez a visita ao Mundo inferior, não é visita, é permanência. Porque aqui é minha casa também.
Dizem que sem dormir, ninguém sobrevive. Hoje digo, sem sombra, ninguém vive realmente.
E na gestação, sabendo-me de coração ao alto, ganho braços e pernas.
E é na intimidade com os demónios que aqui habitam, com as partes que quiz esconder e até matar (mas por isso dando-lhes vida), que forjo a foice com que me defendo, com que corto as ligações que me desvitalizam… com que colho as ervas medicina, ervas perfume!
Sou responsável para escolher.
E na gestação reconheço os meus corpos, o meu espaço, o espaço que ocupo. Aqui em baixo, lá em cima… o espaço que sou e ocupo em qualquer lugar onde me mova. Espaço semente, espaço concretização.
Como uns bagos de romã que Plutão me ofereceu… já os judeus sabiam da sua ligação com a Árvore da Vida.
Porque sangue é conexão com a vida. E a morte, uma porta para o nascimento.
E olho Plutão sendo cada vez mais aquela que ocupa um trono, num Reino que é o dele também. Vivendo Ciclicamente, em encontro com outros seres cíclicos. E olho-o sabendo que o posso também amar. Porque o meu cinto… é sempre meu. Porque o meu espaço… posso defendê-lo, tanto como partilhá-lo.
E assim foi contando o meu tear… fomos contando, o meu Tear e eu. Cocriando a Persona, Rainha Bela em toda a sua fealdade. Bela em toda sua força e fragilidade … Bela, prudente e protegida.
Proserpina, com nome, corpo, coração e alma. Inteira e atuante na Roda da Vida.
Acolhendo a ciclicidade da vida em toda a sua extensão.
É incrível como na sombra destes meses frios resgatei a minha INOCÊNCIA!!!
Tecendo luz e sombra… gargalhando e sorando… morrendo e nascendo… sempre tecendo, sempre criando…
Sim Proserpina, com mais cabelos prata… Rainha do submundo… forte, bela e inocente…
As bagas que sobraram, como-as em compromisso com a ligação com este espaço sagrado, na verdade de ser a Rainha do meu submundo. Laço de cuidado e responsabilidade. Sabedoria de que regresso, vezes sem conta, honrando a verdade naquela que sou. Antioxidantes são bons para qualquer caminho!
Já os corpos cheiram a Primavera, e cá em baixo as sementes rompem denunciando a verdade dos tempos e a linha que desenha o meu caminho na Vida . Em amor abraço-me. Troco cumplicidades com Plutão que em momentos pontuais me viu tecer, tecendo-me…
Com quem aprendi na escassez e na abundância (sim… como pode ser abundante o sobsolo no Inverno…). A quem odiei e amei… com quem afinal, até coopero.
Coloco na Bolsa o que me é sagrado.
Nascendo-me, paro-me na viagem ao encontro da Primavera, um novo zero ou infinito no meu baralho.

Rita Leite Prudente

Proserpina lá vem vindo,
Aí como o dia está lindo,
Aí lá vem ela a cantar….
Cantando com breves cantigas
Bailando com as amigas
Leves como bolhas de ar…

O Rapto de Proserpina_ Adaptação Maria Luisa Barreto
Ouço-a com a voz da querida Ana Alpande

(A Rita esta a acabar o Curso a Arte de Tecer a Vida sobre o qual podes saber mais aqui. É Terapeuta, Doula, Artista, Mulher plena e imensa com quem tenho o prazer de caminhar e aprender.)

Aqui podes ouvir a versão do mito da Proserpina de que a Rita fala no fim do seu testemunho/reflexão.

Se te identificas com que acabaste de ler, talvez queiras assinar a minha newsletter mensal. A cada Lua Cheia eu envio um e-mail com novidades e inspiração.
Subscreve o correio da Lua Cheia
Aqui

 

Advertisements

One thought on “Proserpina em mim, Proserpina em nós. Mitos que nos tecem e se entrelaçam com a vida cíclica.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s