Ser peregrina do quotidiano

Ser peregrina do quotidiano

SER PEREGRINA DO QUOTIDIANO

“As time remains free of all it frames

May your mind clear of all it names”.

John O’ Donohue

Todos os dias o aprumado par de sapatos arrumado à porta de casa, aguarda pacientemente o momento de explorar as paisagens familiares do quotidiano. O chão que os sapatos pisam nunca é o mesmo. Esta intimidade da sola que pisa firme o solo, não dá espaço a  ilusões de certeza.

O solo está em constante mudança: ar, terra, fogo, água, esculpem constantemente a face desse familiar desconhecido – o nosso chão.

Caminhamos pelas paisagens da familiaridade tantas e tantas vezes alheias ao convite profundo que se anuncia nas faces das nossas relações anónimas.

Somos convidadas a testemunhar a magia cíclica da transformação sem que para tal tenhamos que dar provas de diplomas ou merecimentos. Apenas nos pedem presença.

Ao caminhar atenta pelos arredores do meu quotidiano, vou notando as diferenças subtis nos ciclos diários dos elementos da minha paisagem. Também eles, os elementos, são regidos pelas marés cheias e vazias da Lua.

Talvez seja a própria Lua que subtiliza a minha atenção.

Cresço na presença senciente de um mundo oculto que fala, oculto não porque se esconde da vista, antes porque é ocultado pelos nomes familiares, aqueles que familiarmente o designam.

Este mundo velado aponta para os cantos subtis dentro de mim, aos quais só tenho acesso quando saio de casa, pronta para ser participada pela minha própria imaginação ativa. Uma imaginação que desperta enquanto passeia  pela  paisagem interna dos meus dias, em diálogo com a paisagem externa que também é minha, porque afinal de contas, pertenço-lhe.

O teu quotidiano pertence-te tanto quanto tu lhe pertences.

As pedras da calçada que pisas todos os dias sabem que tu és a sua paisagem; viva, participativa em constante transformação. Os musgos que crescem entre as falhas dos telhados antigos da tua vizinhança também. Eles sabem quem és, todos os dias observam quando sais apressada de casa para cumprir com a tirania de um relógio cujo dono incerto,  parece ser o dono do teu tempo.

As árvores do teu bairro, observam-te silenciosas, testemunham os passos do teu pensamento disperso.

Saber caminhar as avenidas do quotidiano, comunicando com as suas paisagens, é dos maiores tesouros que podemos oferecer à nossa Alma e por conseguinte, à Alma do Mundo.

Saber pertencer à familiaridade dos dias, sem determinismos, sem aprisionar o olhar nos nomes, nem nas certezas da mente discriminatória, buscando activamente o constante maravilhamento da possibilidade, o tesouro  que só o “não saber” pode revelar.

Caminhar inteira, colocando toda a totalidade do corpo em cada passo, participando de cada diálogo, cumprimentando cada esquina.

Cada pisar de chão, ilumina o passo seguinte e o caminho para o trabalho, ou para o supermercado, transforma-se numa peregrinação. Numa jornada rumo a si mesma e aos cantos voláteis desta teia sensível que comunica exactamente o  que precisamos saber, que ilumina exactamente o que precisamos ver.

Num quotidiano de constantes distrações e isolamento anímico, o que pode ser mais radical do que caminhar pelas avenidas da rotina com a ousadia de a libertar da familiaridade dos seus nomes confinantes? De permitir que as relações rotineiras estejam a  salvo de designações seguras, para que possam se revelar permanente possibilidade.

Como se a cada novo dia, o senhor Roberto da padaria, tivesse a oportunidade de ser qualquer coisa que a sua Alma precisa que ele seja.

Como se tal fosse possível “só “ porque tu tens a coragem de não prender o senhor Roberto, na caixa daquilo que achas que sabes a seu respeito. Assim o senhor Roberto pode ver através dos teus olhos um reflexo limpo de si mesmo, da clareza de sua Alma.

E se o verdadeiro nome do senhor Roberto, a sua Verdadeira essência for desconhecida e todos os dias ao comprar-lhe o pão, fores convidada a participar da própria peregrinação do Senhor Roberto ao centro de si mesmo? Tudo isto enquanto ele te entrega o pão de centeio e tu procuras dar-lhe o troco certo. Nesse momento, tu passas a ser a avenida do Sr. Roberto e ele a vitrine onde vais limpar as perspetivas cristalizadas do teu olhar.

O meu Chorão e a minha  Nogueira todas as manhãs, cumprimentam-me como se eu fosse tudo. Tudo o que posso ser ou não ser.

Cada dia em que calças os sapatos à porta da tua casa e juntos, tu e os sapatos, pisam a familiaridade desconhecida do chão que vos suporta o peso, vocês, escrevem uma história de pertença e exploração dos territórios da Alma. Passam a ser capazes de reconhecer a teia  viva e participativa em que simultaneamente teces e és tecida, pelo mistério inominável que se perde no território hostil das certezas. Que se perde de cada vez que acreditamos que a totalidade de qualquer coisa pode ser enclausurada no nome que lhe damos.

Que o silêncio interno e o olhar fresco e limpo, possam ser os  fiéis companheiros neste caminho de avivar a pertença na familiaridade das coisas.

Com carinho

Ana Alpande

Foto: Tiago Cerveira

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